Talento Migrante nas PMEs Portuguesas: Da Contratação à Verdadeira Inclusão
As micro, pequenas e médias empresas dominam o tecido empresarial português. Na União Europeia, representam 99% de todas as empresas e empregam mais de 85 milhões de pessoas. As PMEs são, por isso, centrais não só para a economia, mas também para a integração profissional de trabalhadores migrantes.
Em Portugal, a escassez de mão de obra e o envelhecimento da população ativa têm reforçado a importância dos trabalhadores migrantes em setores como a agricultura, a construção, a hotelaria, o turismo, o comércio e outros serviços.
No entanto, contratar trabalhadores migrantes não significa necessariamente incluí-los.
A contratação preenche uma vaga. A inclusão permite que o talento contribua, se desenvolva e crie um sentimento de pertença.
Mais do que uma resposta à escassez da mão de obra
Para muitas PMEs portuguesas, os trabalhadores migrantes são essenciais para manter a atividade, sobretudo em setores e regiões onde o recrutamento é difícil.
O seu contributo vai além do preenchimento de vagas. Os profissionais migrantes podem trazer competências linguísticas, experiência internacional, novas perspetivas e conhecimento de clientes e mercados estrangeiros. Uma força de trabalho diversificada pode, assim, reforçar a criatividade, a capacidade de adaptação e a competitividade.
Contudo, as suas competências nem sempre são plenamente reconhecidas. Segundo dados da OCDE, os cidadãos altamente qualificados de países terceiros que trabalham em Portugal têm uma probabilidade cerca de quatro vezes superior à dos cidadãos portugueses de estarem sobre qualificados para as funções que desempenham. As dificuldades no reconhecimento de qualificações estrangeiras podem levar profissionais qualificados a trabalhar muito abaixo do seu nível de especialização.
As barreiras associadas ao recrutamento
A burocracia continua a ser um dos principais desafios para as entidades empregadoras. Os procedimentos relacionados com os vistos, as autorizações de residência, a documentação laboral e a regularização podem ser complexos e demorados, sobretudo para pequenas empresas sem equipas de recursos humanos dedicadas.
O Plano de Ação para as Migrações de 2024 reconheceu a necessidade demográfica, social e económica da imigração em Portugal. O plano centrou-se na imigração regulada, na atração de talento estrangeiro, na integração eficaz e na reorganização institucional.
A língua pode também afetar a comunicação diária, a relação com os clientes e a compreensão das normas de segurança e qualidade no trabalho. As diferenças culturais na comunicação e nas práticas profissionais podem gerar mal-entendidos, caso a integração não seja ativamente apoiada.
Estes não são desafios que os trabalhadores migrantes devam enfrentar sozinhos.
Porque pode a inclusão ser mais difícil nas pequenas empresas?
A maioria das micro e pequenas empresas não dispõe de sistemas formais de acolhimento, programas de diversidade ou equipas especializadas de recursos humanos. O recrutamento, a formação e o acompanhamento dos trabalhadores são muitas vezes assegurados diretamente pelo proprietário ou por uma chefia com pouco tempo e experiência limitada em gestão intercultural.
As pequenas empresas podem também ter dificuldade em financiar cursos de língua portuguesa ou em permitir que os trabalhadores os frequentem durante o horário laboral. Em setores com margens de lucro reduzidas, o investimento em iniciativas formais de inclusão pode ser particularmente difícil.
A gestão informal cria riscos adicionais. Sem procedimentos claros para remuneração, licenças, responsabilidades e progressão profissional, os trabalhadores migrantes podem ter mais dificuldade em compreender os seus direitos ou em apresentar preocupações.
Pequena dimensão: uma vantagem e um risco
As equipas pequenas podem favorecer uma integração mais rápida. O contacto diário pode ajudar os trabalhadores a criar relações, a receber orientação imediata e a desenvolver um sentimento de pertença mais forte.
Um colega experiente pode explicar os procedimentos do local de trabalho, ajudar com vocabulário desconhecido e apoiar o novo trabalhador durante as primeiras semanas.
No entanto, a proximidade também pode intensificar conflitos pessoais, preconceitos ou tratamentos desiguais, sobretudo quando não existem mecanismos formais de reclamação.
A informalidade pode criar pertença, mas não pode garantir a igualdade.
Do acolhimento à verdadeira inclusão
Uma inclusão eficaz não exige necessariamente um orçamento elevado. As PMEs podem adotar medidas práticas ajustadas aos seus recursos:
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um processo de acolhimento claro e informação acessível sobre saúde e segurança;
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mentoria por parte de um colega experiente;
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apoio flexível à aprendizagem da língua portuguesa;
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formação intercultural básica para chefias e equipas;
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critérios transparentes de remuneração, formação e progressão profissional.
Em 2024, a AIMA e a Associação Portuguesa para a Diversidade e Inclusão destacaram o papel das organizações no apoio ao recrutamento, à integração e ao desenvolvimento profissional de trabalhadores migrantes.
A Saint-Gobain Portugal identificou igualmente a formação inicial abrangente, o acompanhamento contínuo, o apoio linguístico, a mentoria e as iniciativas interculturais como elementos essenciais para uma integração bem-sucedida.
A inclusão deve continuar para além das primeiras semanas de trabalho. Os trabalhadores migrantes precisam de condições justas, acesso à formação e oportunidades que reconheçam as suas qualificações e experiência profissional.
Conclusão
Os trabalhadores migrantes já são essenciais para muitas PMEs portuguesas. Contudo, o seu contributo a longo prazo depende da capacidade das empresas para irem além da contratação e criarem oportunidades justas de participação e desenvolvimento.
As PMEs podem ter menos recursos formais do que as grandes empresas, mas as relações de proximidade nas pequenas equipas podem favorecer uma integração significativa, quando acompanhadas por práticas claras e equitativas.
Contratar cria diversidade. A verdadeira inclusão transforma-a em valor partilhado.
Bibliografia
Agência para a Integração, Migrações e Asilo — AIMA. (2024). Diversidade em contexto laboral: Abordagens inclusivas para a integração de pessoas migrantes.
https://aima.gov.pt/pt/noticias/diversidade-em-contexto-laboral-abordagens-inclusivas-para-a-integracao-de-pessoas-migrantes
Associação Industrial do Distrito de Aveiro — AIDA. (2025). Annual report on European SMEs 2024–2025.
https://aida.pt/en/annual-report-on-european-smes-2024-2025/
Eurostat. (2024, 25 de outubro). Micro and small businesses make up 99% of enterprises in the EU.
https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20241025-1
Saint-Gobain Portugal. (2024). Integrar imigrantes nas empresas nacionais? Estas são as chaves para o sucesso. Entrevista a Maria Novais.
https://www.saint-gobain.pt/noticias-grupo/integrar-imigrantes-nas-empresas-nacionais-estas-sao-chaves-para-o-sucesso